Com este projecto pretendo captar, de um modo geral, a notoriedade da cidade como espaço de passagem e de acontecimento e, em particular, mostrar que são as semelhanças que contextualizam e as diferenças que valorizam o resultado fotográfico, e com isso fazer o reporte para as sociedades humanas.
A Fotografia vive do momento e do acontecimento. O momento tem a sua própria existência efémera no tempo e o acontecimento depende dos elementos autónomos integrados no espaço objecto da Fotografia.
Por muito que fotografemos elementos iguais e composições iguais na cidade, esta está em contínuo movimento e nunca obtemos duas fotos exactamente iguais pois os acontecimentos à nossa volta são infinitamente variáveis e, na sua maioria, valem a pena ser registados. As semelhanças unem ao dar um contexto como base para a comunicação e as diferenças valorizam ao serem fonte de surpresa e de aprendizagem na interacção.
A cidade é essencialmente um aglomerado de espaços. Para este trabalho escolhi fotografar dois espaços (o projecto final serão cinco espaços). As fotos são tiradas mantendo o enquadramento (contexto) e esperando pelo momento com algum acontecimento (diferenças). Estes espaços são o universo da Fotografia. Alguns são essencialmente de movimento, portanto são integrados indivíduos nas suas várias alternativas de locomoção - eléctrico, carro, scooter ou a pé. Outros também podem ser de paragem pelo que são integrados indivíduos com um comportamento menos acelerado, nas esplanadas, bancos, a ver as montras, etc.
Escolhi um excerto de uma ensaio que me inspirou para o conceito deste projecto. Mais do que constituir uma sinopse considero que este texto deve acompanhar as fotos.
"Se olharmos à nossa volta, veremos outros indivíduos idênticos a nós. Por mais que procuremos, nunca encontraremos ninguém que seja exactamente idêntico a nós. Todos e cada um somos feitos apenas de diferenças; no planeta há 6.000 milhões de homens e mulheres, mas cada um deles é diferente de todos os restantes: não há indivíduos absolutamente idênticos entre si, é uma impossibilidade. Existimos porque somos diferentes, porque temos diferenças e, todavia, algumas destas diferenças incomodam-nos e impedem-nos de interagir, de nos comportarmos amistosamente, de manifestarmos interesse pelos outros, de nos preocuparmos uns com os outros, de nos ajudarmos - e, sejam tais diferenças quais forem, é a natureza das fronteiras que traçámos que as determina. Cada fronteira cria as suas próprias diferenças, atribuindo-lhes consistência e sentido."
Zigmunt Bauman, "Viver com estranhos", in Confiança e Medo na Cidade, Lisboa, Relógio d'チgua, 2006, p. 72.